E se o abismo for para cima?

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E se o abismo for para cima?

E se continuarmos a cair no tremendo abismo cósmico do céu? E se ele nos abraçar?
E se os nossos corpos continuarem a dissolver-se, a virarem-se para o pó do corpo, a juntar estrelas?
E se esta vasta escuridão desconhecida nos mantivesse a puxar-nos para cima?

 

Então viremo-nos de cabeça para baixo, cabeça no chão, pés em direcção às nuvens e céu azul (ou noite estrelada, dependendo da hora).
Sentindo a densidade nutricional do solo sob a cabeça e as mãos, a âncora matriz, o seu suave puxar e abraçar. Sentindo o peso de todo o corpo e da cabeça. Pés leves e arejados acima, a serem beijado pela brisa e pelas estrelas. Consegue sentir as estrelas nos seus dedos dos pés? Agora sentemo-nos de novo, aliviando a cabeça da sua própria gravidade. A mudança de perspectiva física ajuda sempre a encontrar novos pontos de vista.

Conseguirá sentir agora a atracção cósmica? A desintegração latente e o esquecimento que palpita pela cabeça. Ou será uma ligação ao núcleo criativo da realidade? A queda subtil e lenta para cima. Para longe. Para cima. Na escuridão cósmica profunda. A vasta escuridão do nada.

Ao longo dos últimos vinte anos, tenho estado atenta à terra e ao solo. Ao solo simples e poderoso que tudo sustenta. À vida latente que nele habita e que se renova a cada momento. À sinceridade e humildade que nos verticaliza e nos ancora, apesar de todos os seus desvios e curvas, crostas e inclinações.
Tenho aprendido a ouvir a antiga modulação da sua crosta viva, as suas dobras, vincos e rugas. Por isso, sinto cada fractura, cada ruptura sensual, e separação que nos permite atravessar e re-significar o caminho com cada passo. Todos os cortes e fendas fazem parte da continuidade do lugar, da diversidade da sua pele e textura, de todas as fossas e encostas, lombadas e subidas.
Há uma misteriosa intimidade nos caminhos que se desenrola e recria a cada momento. Ouço a melodia silenciosa do território que me rodeia na antiga canção da sua viva e actual matriz de memória. Sinto a delineação da sua poderosa geografia que me abraça e sustenta.

E depois há esta atracção – esta oscilação cósmica. Uma forma cósmica e sistémica de vida em si própria, um processo de viver no presente, de uma forma participativa e responsável. A queda para cima nada tem a ver com regras absolutas de perfeição ou mesmo resultados fechados baseados em pressupostos, preconceitos, ou expectativas. Esta queda ancestral é estar consciente do que aparece e emerge em nós como um esclarecimento íntimo.

Tudo está genuinamente interligado, daí a importância de conhecer amorosamente esta atracção espaço-tempo: o antigo telúrico-terra-serpente do lugar e o vasto-cósmico-turbilhão primordial do tempo. Semeando-nos à vida. Respirando-nos para a existência.

O campo morfo-energético do sistema em que estamos inseridos é altamente mutável e dinâmico, ressoando sempre com os vários contextos integrados de ocorrência. Assim, ao procurar respostas finais e objectivas esperando receber uma resposta linear a processos de vida multidimensionais, podemos ficar frustrados ou totalmente confusos. Que norma a seguir? Há toda uma fragilidade desconcertante quando tocamos na transformação contínua da realidade no padrão tecido.

Profundamente processada, há uma maturação inevitável nessa árdua jornada – um crescimento. Quando estamos de pé a caminhar sobre a vida, fomos aculturados para suportar a escassez e o perigo. Tentamos caminhar nas pegadas uns dos outros, procurando não perder nenhum pé para não cair ou ficar feridos, crescendo apenas com medo. Mas para além do medo, podemos também ganhar perspectiva, lendo as matrizes.

Assumindo que estamos no nosso corpo, na actual e urgente estrutura de vida. Reclamando aquele lugar na teia, aquele que ocupamos genuinamente. Isto é uma peregrinação, não um destino ou solução. Esta presença funciona com o que emerge, em fluxo consciente e não em controlo.

Deixe o seu corpo cair para cima, assumindo mais uma vez a responsabilidade pelo nó espaço-tempo que é, reacendendo ligações primordiais com o pluriverso, reavivando a imaginação, afastando fronteiras, descobrindo novas técnicas ou caminhos, os que abrem caminho à tutela de paisagens e territórios antigos.

Pertencer é um acto radical.

©Sofia Batalha 2022

[Disclaimer: todas as palavras e conceitos tecidos neste artigo nascem através da minha percepção viva, naturalmente tendenciosa e sempre limitada das coisas, não supondo que tragam qualquer verdade absoluta].

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Por Sofia Batalha

Mamífera, autora, mulher-mãe, tecelã de perguntas e desmanteladora o capitalismo-global-colonial-tecnológico um dia de cada vez. Desajeitada poetiza de prosas, sem conhecimentos gramaticais. Peregrina pelas paisagens interiores e exteriores, recordando práticas antigas terrestres, em presença radical, escuta activa, ecopsicologia, arte, êxtase, e escrita.
Autora de oito livros e editora da revista online e gratuita Vento e Água, podcast Re-membrar os Ossos e Conversas D'Além Mar.