Literacia do Mistério

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Literacia do Mistério

Eco-mitologia e a Sabedoria Integrada

É certo que navegamos em tempos incertos. Na verdade, sempre foi assim, com os desafios e contratempos de cada época, e a comunidades humanas sempre a tentarem prever, planear e encontrar soluções para as suas dificuldades. Hoje, talvez, mais difíceis de digerir pelo seu impacto global e pela velocidade a que nos invadem a cada momento, seja onde estivermos.

Culturalmente no continente europeu assumimos, principalmente desde o iluminismo, que os dados objetivos e os factos que deles advém são a única forma de aceder seja ao conhecimento, à verdade e às suas causas e consequências. Hoje em dia, mais do que nunca, numa sociedade de tecnologias de informação, de conspirações e fake-news e da velocidade a que tudo se move, temos acesso a muitos números, métricas e medições, enquanto navegamos entre algoritmos invisíveis, procurando a solução final. Temos acesso a estudos, gráficos, estatísticas, documentos e investigações que apontam a humanidade para um futuro de desolação, sublinhando que a nossa trajectória hiper-individualista, tecnológica, extractivista e industrializada se dirige a rapidamente contra o trágico muro da extinção – isto para além da intensidade do que já vivemos entre os desafios pessoais, da pandemia, do crescente autoritarismo, da guerra e escalada dos preços –. Estamos cada vez mais assustados e em sobressalto, sem forma de digerir e incorporar o que se passa à nossa volta.

Quem vive e trabalha, trans e interdisciplinarmente, pensando e gerando e partilhando estudos e investigações, cruzando informações e medidas das alterações climáticas, da perda de biodiversidade assim como das causas e consequências sociais e políticas de tudo isto, está sempre directamente exposto à violência dilacerante destes dados trágicos.

Os cientistas, investigadores e activistas estão em desolação e esgotamento profundo, cansados da resposta inexistente e pressionados pela ameaça e opressão dos dados que encontram. Exaustivamente procuram a solução e a resposta, enquanto partilham as suas descobertas e conclusões, tudo isto no meio da angústia, do medo e da aflição constantes.

Lutam dedicadamente de mente e coração apoiados nas estatísticas e observações objectivas. Mas esgotam-se na frieza dos dados, sem ter como se regenerar ou onde se amparar. Sofrem de depressão e eco-ansiedade pelos males do mundo que sentem a queimar-lhes a pele a cada momento.

Na maioria destas comunidades activistas e científicas, altamente preocupadas e informadas com o curso das coisas, encontra-se também a perversidade da mente moderna e absolutista, seja no tentar encontrar soluções “finais, economicamente viáveis, globais e práticas”, como na trágica repugnância e vergonha “intelectual” em reação directa a outras formas de estar e entender a realidade. Refiro-me especificamente ao exílio das antigas sabedorias dos três M’s: Mistério, Metáforas e Mitos.

A iliteracia moderna do Mistério, reduz e domestica o seu território incerto ao domínio da fé religiosa, objectificando-o como “inferior e primitivo” e limitando-o ao campo do esoterismo, perdido em dogmas e rituais ignorantes e, deus nos livre, mesmo sobrenaturais.

A literacia do Mistério sussurra à limitada mente moderna a imaturidade de conceber um mundo sem a certeza dos factos, uma realidade onde não há intermédios ou ambiguidades, onde as categorias são factuais e os limiares são de evitar. Numa perspectiva linear que cai na ilusão do controle. A sabedoria selvagem do Mistério e da própria Vida não aplaca a dor, mas ajuda a navegar com ela, daí o seu valor não mensurável, mas real.

A mente reduzida moderna, achando-se moral e intelectualmente superior, entende os três M’s como formas primitivas e infantis de interpretar a realidade, pois não são factuais, mensuráveis ou objetivas. Afinal as histórias são para crianças, servindo apenas como fantasias vazias para escapar a uma realidade dolorosa. As proezas celebradas são técnicas e sempre com resultados práticos e economicamente vantajosos. Por outro lado, a cruel procura de soluções globais, baseadas em dados objetivos, esbarra constantemente nos contextos reais e singulares de cada local e população, não oferecendo espaço real para a resposta triunfante da solução final, como a mente e cultura modernas esperam constantemente. Esta é apenas outra limitação trágica da narrativa moderna do transcendente, aprisionada à legitimidade única da linguagem do antropocentrismo e absolutismo.

De facto, ter acesso a toda esta informação é muito violento e dilacerante e, sem amparo emocional, fica demasiado difícil de digerir, incorporar ou regenerar. A questão é que sem os valiosos fios vivos das Metáforas, dos Mitos e do Mistério, facilmente nos encontramos a escalar frias montanhas de vidro, espelhadas e escorregadias, devastadoramente afiadas e cortantes, abrindo feridas emocionais cada vez mais fundas, por onde se esvai a força, a vontade e a presença. Por onde perdemos a Vida.

Sem os três M’s deixa de haver fios de relação profunda que nos sustentam e amparam, num mundo incerto. A realidade cientifica moderna, exclusivamente antropocêntrica, é órfã de relações profundas, das que nutrem, abrigam e suportam, as conexões que assistem à metamorfose. A favor da crueza e frieza dos factos, e para nos mantermos válidos, exilámos a sabedoria emocional e corporal, separando-nos tragicamente do mundo que urgentemente queremos salvar. Deixamos de ver, sentir, ouvir, cheirar ou tocar nestes poderosos diálogos mais que humanos, suprimindo do Mistério a favor do controle e segurança.

Chegamos à Meta

“Meta”, aqui não como a chegada ao objectivo final, mas como prefixo de palavras como metafísica, metáfora, meta-mensagem e tantas outras. Este prefixo vem do grego antigo μετα- (meta-), de μετά (metá), do grego micénico 𐀕𐀲 (me-ta), possivelmente do proto-indo-europeu *meth (“ao meio”). O seu significado grego é “entre, com, depois,”. Numa das suas interpretações, Meta descreve a transcendência dos limites originais, para além. Como usado em metafísica que significa a física para além da física, como descrição da realidade subtil, ou em meta-mensagem que traz a mensagem por detrás da mensagem.

Aqui resgato um dos territórios mais antigos deste prefixo, essencial à literacia do Mistério abre espaço ao campo fértil e necessário da Eco-Mitologia. Relembramos aqui o prefixo Meta, não como transcendência da abstração para além das coisas, mas como sabedoria nuclear e imanente, sempre em desdobramento vivo. Saímos dos “altos” níveis de concepções intelectuais e voltamos ao meio, ao centro do corpo e da experiência sensorial, dos fios de relação profunda referidos anteriormente.

A questão é que a exclusividade normativa da transcendência e abstração, como único caminho válido para a verdade ou solução ao serviço da consciência humana “superior” exila e silencia a intensa, mas subtil imanência animista. Ignorando os limiares e transformações, assim como a espontaneidade das próprias soluções. Mutilando a sabedoria fractal dos paradoxos, que nos permite resgatar partes de nós esquecidas e silenciadas, as que não são aceites numa cultura causal e factual, mas as que se lembram das histórias que nos sustentam.

Eco-mitologia e a Sabedoria Integrada

A Eco-Mitologia é, portanto, um espaço-tempo que permite o remembramento da nossa sabedoria integrada e contextual. Um lugar, tanto interno como externo, onde sanamos a relação profunda e a sabedoria íntegra que trazemos no corpo, no subtil diálogo não hierárquico e mais que humano. Inspirada nos preceitos da ecopsicologia, eco-espiritualidade, descolonização, xamanismo e do animismo e nas histórias como recursos vivos e dinâmicos que ajudam a desbravar, sustentar e alquimizar as dores, lutos e golpes dos factos. A Eco-Mitologia traz chão, teia e valiosos fios de conexão viva.

Aventuramo-nos para além da tirania linear e solucionista.

Pois a Eco-Mitologia abre um espaço orgânico onde temos licença para sentir e, mais importante ainda, para não saber, celebrando o valor regenerador e criativo do Mistério. Levantando o véu das narrativas culturais invisíveis, mas perniciosas, re-encontramos, sem apropriar, outras formas de estar, outras maneiras de ser mundo. O desafio é desaprender a normalidade, compostando o que achamos que sabemos (sim, mesmo a objectividade, linear e factual como única forma de compreender o mundo) do que julgamos que precisamos, até à forma como decidimos, agimos ou planeamos. Não há chegadas triunfantes nem soluções universais, pois vivemos um pluriverso multidimensional, altamente vivo e complexo, de múltiplas relações a acontecer a cada momento. Continuamos curiosamente a fazer perguntas, agora não limitadas à mente moderna, pois abrimo-nos a questões sistémicas e em diálogo mais que humano.

A Eco-Mitologia é uma das formas (não a única) de navegar e adentrar a valiosa e selvagem complexidade, a singularidade de cada contexto e Vida, relembrando e recriando as histórias e lugares. Ouvindo de novo a sua sabedoria não verbal, mas real.

A Eco-Mitologia não pretende superficializar-se ou limitar-se à estrutura do mono-mito linear do herói, propondo-se a uma rica peregrinação fractal e caleidoscópica, trabalhando da alegria ao luto, no ciclo orgânico e completo entre a vida e a morte, resgatando e re-criando um diverso ecossistema de histórias, mitos e contos.

A Eco-Mitologia é assim uma prática de vida imanente, sustentada na necessária literacia do Mistério, das Metáforas e dos Mitos, desdobrando-se pelos lugares, pelo corpo, pelos ciclos ou pelas lendas e contos.

Um convite multi-disciplinar à presença e à escuta, em responsabilidade e compromisso. Uma licença para imaginar, relacionar, dialogar, oferendo-nos de volta à Vida, em toda a sua fragilidade e potência, sustendo o nosso luto e ansiedade.

Precisamos cuidar da liberdade e do mistério, pois a Eco-Mitologia, abraçando-nos no colo dos ecossistemas e da própria Vida, lembra-nos da perversa ditadura da “utilidade e produtividade” moderna. Para chegar às soluções “úteis” precisamos de voltar a ouvir em intimidade profunda.

©Sofia Batalha 2022

[Disclaimer: todas as palavras e conceitos tecidos neste artigo nascem através da minha percepção viva, naturalmente tendenciosa e sempre limitada das coisas, não supondo que tragam qualquer verdade absoluta].

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Por Sofia Batalha

Mamífera, autora, mulher-mãe, tecelã de perguntas e desmanteladora o capitalismo-global-colonial-tecnológico um dia de cada vez. Desajeitada poetiza de prosas, sem conhecimentos gramaticais. Peregrina pelas paisagens interiores e exteriores, recordando práticas antigas terrestres, em presença radical, escuta activa, ecopsicologia, arte, êxtase, e escrita.
Autora de oito livros e editora da revista online e gratuita Vento e Água, podcast Re-membrar os Ossos e Conversas D'Além Mar.